terça-feira, 18 de março de 2008

Desconfiguração


Cargas de monstruosas proporções
São o que os olhos levam no peito
Mas ao saltar de olho em olho
Levas as cordas de todos os tempos contigo,
Percebes ao longo de existências infinitamente pequenas
Que as mortes são efémeras,
Cada ser se sobrepõe a outros tantos
E por vezes até os sonhos esmagam os seres

Esmagas a unha contra a lamela
Queres ver mais perto
Perceber que aspecto tens lá dentro
No fundo do ser
No lugar onde residem
Vinte e uma irmãs
Que compõem o acorde final

Mas ao sobreexistir
Sentes a pele bem junto dos orgãos
E estes ao apodrecerem
Carregam as vidas de outros tantos
Para o seu aterro
O lixo do ser

E então eu chamo-as
Vinte e uma vezes
E uma a uma
As irmãs aproximam-se rodeando-me,
Estou pronto para partir
Libertando-as no vento do esquecimento eterno
Deixando no ar a esperança vã de continuar a existir
Na memória do espelho.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

domingo, 4 de novembro de 2007

sábado, 27 de outubro de 2007

Agora perdi a ligação, aquele elo inexplicável quebrou-se, passei a semana com aquele aperto no peito, aquele "bad feeling" que ninguém consegue perceber bem o que é. O mau pressentimento não foi em vão, quando pensava que me tinha recomposto da primeira decepção logo veio outra. Mas a vida é mesmo assim, é o preço que se paga por estar vivo, a balança não pende para um lado apenas. É com um peso enorme no peito que escrevo isto, o que eu perdi não vai voltar nunca mais, e era precioso. Só espero que ela saiba de alguma maneira que eu a amo e que nunca a vou esquecer.
Nunca me poderei esquecer da maneira como se aninhava no meu colo, do calor que me aquecia nas noites frias, a única companhia que tinha nas minhas longas noites de insónia. A maneira como me seguia pela casa e me lambia os dedos quando se estava a lavar, quando encostava o focinho frio ao meu nariz. Adorava vê-la a sonhar.

A saudade já se apoderou de mim.


Adeus Chloe.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

É difícil ver os olhos de quem chora,
Há por fora aquele brilho vidrado, uma tristeza convulsiva por dentro
Um mar que se quer libertar
Parece que não consigo conter as ondas
E que ele me vai estraçalhar.

Por isso não me vejo ao espelho,
Não consigo ver para dentro de mim
A minha visão turva não me deixa

(mas para que quero olhar para mim?!)

Só quero estar longe de tudo
Não, quero estar perto dos siameses
Almas que se unem à minha
Que partilham as dores.

Os golpes acutilantes da vida também nos ferem a nós.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Cansei-me.

Já não sei o que fazer. Tudo me parecia tão fácil ainda à pouco. As coisas fáceis não têm piada, pois não? Carreguei-me de artimanhas, ilusões e desvarios.

Haviam de acabar um dia.


Foi hoje.

Foi hoje que eu me apercebi que as coisas já mudaram há muito tempo.


Eu mudei, mas para quê? Para quem? A mudança parece-me irreversível, ainda não tenho noção dos danos que sofri, estou a experimentar para perceber até onde posso ir.


Desta vez a ferida foi funda, acho que o meu coração tem um rasgo.

Outono

Assim que a primeira gota me tocou estremeci, não estava preparado para aquela sensação repentina de frio localizado, e foi aí que ela escorreu, encostada ao meu corpo, agora morna. Olhei para o lado, as memórias vieram à tona. Pensei nas coisas que me disseste, no que me sussurraste ao ouvido. Quero sentir-me assim outra vez. Estremeço. Dei por mim parado na chuva, com o frio entranhado nos ossos. Aquela gota morna já caiu há tanto tempo. Pego nas minhas coisas: uma caneta e papel (agora molhado).
Sigo pela rua, sempre em frente, não há que enganar embora o meu passo não me diga o mesmo. Cambaleio. As tonturas outra vez. Não consigo estar parado, e vejo agora que também não consigo parar de andar, ainda que tonto e às cegas nesta rua escura e escorregadia. O único consolo que tenho é a presença de alguns, a serenidade tempestuosa que são os meus, os que me escolheram e que eu escolhi. Paro. A tontura ficou lá atrás. Mas vai voltar, volta sempre.